O que está acontecendo?
Isaque, o filho prometido de Abrãao, se casou (Gênesis 24). A expectativa é que ele e sua esposa sejam aqueles por meio de quem nascerá uma grande família que abençoa todas as nações. Mas, estranhamente, é Abrãao quem continua a ser fecundo, mesmo depois da morte de Sara. Com sua nova esposa, Quetura, Abrãao gera muitos outros filhos, e sua família fora de Isaque começa a se multiplicar (Gênesis 25.1-4). Ainda assim, Abrãao envia esses parentes prósperos mais para o leste — longe da terra que Deus prometeu. Desse modo, ele deixa claro que toda a sua esperança repousa em Isaque, o filho da promessa (Gênesis 25.5-6).
Então Abrãao morre. Depois de uma vida plena e fecunda, ele é sepultado na própria terra que Deus jurou dar à sua família (Gênesis 25.7-10). Mas, quando seu corpo é posto na terra, resta apenas Isaque como único herdeiro da promessa. A família próspera por meio da qual Deus havia prometido abençoar as nações agora depende de um só homem.
E o contraste fica mais nítido quando olhamos para o outro filho de Abrãao, Ismael. Suas gerações também estão se multiplicando (Gênesis 25.12-18). Mas a linhagem de Ismael não é a família próspera que encherá a Terra prometida. Seus descendentes se multiplicam, mas fora da promessa.
Por fim, chegamos a Isaque. Mas, assim como antes com Sara, Rebeca é estéril (Gênesis 25.21). A promessa parece ameaçada outra vez. A linhagem da bênção que Deus prometeu sobreviverá ou as nações sob o poder da serpente a extinguirão?
Isaque ora, e Deus abre o ventre de Rebeca (Gênesis 25.21). Mas, mesmo em sua gravidez, a ameaça continua. Rebeca sente os filhos lutando dentro dela, e Deus lhe diz que ela carrega duas nações (Gênesis 25.22-23). Elas estão em contenda uma com a outra, um retrato vivo do conflito entre a descendência da serpente e a descendência da bênção. E, surpreendentemente, Deus declara que o mais velho servirá ao mais novo. Mais uma vez, o primogênito não levará adiante a linhagem da promessa. Assim como Sete substituiu Caim (Gênesis 4.25) e Isaque substituiu Ismael, o plano de Deus se cumpre não por meio do orgulho ou da tradição humana, mas por meio do seu próprio poder.
Quando os gêmeos nascem, porém, a bênção esperada toma outro rumo. Esaú, o mais velho, recebe os direitos de primogênito. Jacó, o mais novo, sai agarrado ao calcanhar do irmão — seu próprio nome significa “agarrador” ou “usurpador” (Gênesis 25.26). E, fiel ao seu nome, Jacó obtém o que pertencia a Esaú, primeiro negociando o direito de primogenitura por um prato de ensopado (Gênesis 25.29-34) e depois enganando seu pai Isaque para receber a bênção (Gênesis 27.18-29).
Esses acontecimentos são confusos e moralmente complexos. Mas, por trás deles, está a mão de Deus cumprindo o que ele já havia declarado: a promessa passaria pelo mais novo, não pelo mais velho (Gênesis 25.23). O que parece frágil e conflituoso na superfície é, na verdade, Deus garantindo que os seus propósitos avancem.
Onde está o Evangelho?
Essa história deixa claro que a promessa de vida e bênção não será levada adiante pela força, pela sabedoria ou pela bondade humanas. Tanto Jacó quanto Esaú são profundamente falhos. O próprio Isaque demonstra favoritismo (Gênesis 25.28). Nada nesta família parece ser o solo do qual poderia crescer uma bênção para o mundo inteiro.
Mas a aliança de Deus nunca dependeu da perfeição humana. Como Romanos 9 explica, antes mesmo de Jacó e Esaú nascerem — antes que tivessem feito algo de bom ou de mau — Deus escolheu o mais novo para levar a promessa (Romanos 9.10-12). Isso mostra que o seu plano não repousa no esforço humano, mas na misericórdia de Deus (Romanos 9.16).
E essa misericórdia chega à sua expressão mais plena em Jesus. Ele é a verdadeira descendência de Abrãao, o Filho prometido que triunfa onde todos os outros falharam (Gálatas 3.16). Ao contrário de Jacó, Jesus não precisou tomar a bênção — ele já a possuía como legítimo Filho de Deus. Mas, em vez de guardá-la para si, Jesus a compartilha. Pela fé, somos adotados na família de Deus e feitos co-herdeiros com Cristo (Romanos 8.17).
Isso significa que, embora sejamos mais parecidos com Jacó do que gostaríamos de admitir — agarrando, tramando e propensos ao interesse próprio —, a misericórdia de Deus ainda nos reivindica. Em Jesus, não somos apenas escolhidos, mas também transformados. Jacó, o agarrador, torna-se Israel, o pai de uma nação (Gênesis 35.10). E, em Cristo, o velho eu que há em nós é feito novo (2 Coríntios 5.17).
Por meio de Jesus, a promessa a Abrãao é finalmente assegurada. Uma família numerosa demais para se contar, de toda nação, herdará a bênção (Apocalipse 7.9). Uma terra de vida e prosperidade será nossa para sempre (Apocalipse 21.1-3). E o poder da serpente para corromper e destruir será esmagado de uma vez por todas (Romanos 16.20).
Veja por si mesmo
Oro para que o Espírito Santo lhe dê olhos para ver o Deus que cumpre as suas promessas mesmo quando o seu povo vacila. E que você veja Jesus como o verdadeiro Filho da promessa, que compartilha a sua herança com você, fazendo de você parte da família de Deus e herdeiro da sua bênção eterna.

