O que está acontecendo?
Israel foi destruída pela Babilônia. O livro de Lamentações é uma série de cinco poemas acrósticos anônimos que lamentam a invasão babilônica e a ruína de Israel. São um memorial alfabético das tristezas de Jerusalém, um relato de A a Z da sua devastação.
No capítulo 1, Jerusalém é personificada como uma viúva enlutada que caiu da graça, da honra e do privilégio (Lamentações 1.1). Seus amigos, seu marido e seus amantes a abandonaram ou a traíram (Lamentações 1.2). Pior ainda, Deus, que um dia a libertou da escravidão e lhe deu descanso em sua própria terra, escravizou sua noiva em trabalhos forçados sob novos senhores estrangeiros (Lamentações 1.3). Esse exílio, no entanto, é culpa da Senhora Jerusalém (Lamentações 1.5). E ela sabe disso.
Ela se lembra de todos os privilégios e dons que Deus um dia lhe deu — e de como, como uma noiva ingrata, permitiu que outros amantes e senhores “entrassem” em seu Lugar Santíssimo e roubassem todas as coisas preciosas que Deus lhe havia dado (Lamentações 1.7-10). Os babilônios expõem publicamente a Senhora Jerusalém por seu oportunismo, sua idolatria e sua imoralidade. Mas, nua, ela exige que Deus olhe para ela (Lamentações 1.9b). Ela quer que Deus veja sua miséria (Lamentações 1.11). E quer que todos os que leem vejam tanto a sua tristeza quanto a ferocidade implacável da justiça divina de Deus (Lamentações 1.12-13). A Senhora Jerusalém aceita sua culpa, mas se recusa a aceitar seu sofrimento como a palavra final de Deus a ela (Lamentações 1.18). Ela suplica que Deus veja sua dor e responda com justiça contra seus inimigos (Lamentações 1.20-22).
Mas Deus não responde. Em vez disso, um segundo poema muda para a perspectiva do autor, que reitera que todos os sofrimentos de Jerusalém vêm da mão de Deus. Vinte e oito verbos são usados para descrever a justiça de Deus. Deus devora, quebra, corta, queima, mata, arrasa, rejeita, despreza e afunda Jerusalém por suas atrocidades (Lamentações 2.1-9). A justiça de Deus é total, e Israel permanece em silêncio em sua culpa (Lamentações 2.10).
Rompendo o silêncio, o autor chora pela Senhora Jerusalém e vomita ao ver a justiça, e até a fidelidade, nas ações de Deus (Lamentações 2.11-17). Ele implora que Jerusalém ponha fim ao seu silêncio e clame ao mesmo Deus que a afligiu, se não por si mesma, então por seus filhos famintos (Lamentações 2.18-19). Entorpecida, a única oração que a Senhora Jerusalém consegue fazer é pedir que Deus olhe e considere. Ela suplica que ele olhe para o canibalismo ao qual as mães foram reduzidas, que olhe para o terror e o custo humano da justiça de Deus, e que considere se Deus realmente deseja que seu juízo seja sua última ação para com o seu povo (Lamentações 2.20-22).
Onde está o Evangelho?
A única esperança para a culpada Israel é que o mesmo Deus que a julga culpada ainda lhe mostre compaixão. No início da história de Israel, Deus entrou em um relacionamento especial com Israel. Ele prometeu prover um reino e uma terra em sua presença, e Israel prometeu ouvir e obedecer às leis de Deus em troca (Êxodo 24.7). Israel assinou seu nome nessa aliança e aceitou uma lista de consequências, ou “maldições”, caso falhasse (Deuteronômio 28.15-68). Com detalhes torturantes, Lamentações descreve as maldições que Israel havia assinado com seu nome. Israel sabe que a justiça de Deus foi boa ao convidar os babilônios. Mas Israel também sabe que, se Deus é bom, então seu juízo deve um dia terminar. O povo sabe que, se Deus é bom, o juízo não pode ser sua última palavra ao seu povo escolhido, mesmo que eles não tenham cumprido sua parte na aliança.
E não foi. Deus enviou sua última palavra ao seu povo em Jesus. Ele se tornou como Israel em seu exílio. Jesus foi abandonado por seus amigos, despido e exposto publicamente nas mãos cruéis do julgamento imperial (João 19.23). Jesus foi profanado e reduzido à miséria como representante vivo da culpa de Israel (João 1.29). E, sob a ferocidade implacável da justiça divina de Deus, Deus não responde quando seu próprio Filho clama de dor (Mateus 27.46). Mas Jesus fez tudo isso porque sabia que, se a justiça de Deus o condenasse, a justiça de Deus teria então de mostrar misericórdia ao seu povo absolvido (João 18.36).
Em Jesus, nossa culpa foi paga. Em Jesus, as maldições foram esgotadas. Em Jesus, recebemos a sua inocência (Romanos 5.1). A justiça de Deus agora nos trata não como uma esposa infiel, mas como uma noiva amada. Agora temos um lar em Deus. A última palavra de Deus ao seu povo não é o veredito de “culpado”. A última palavra de Deus ao seu povo não é o juízo. A última palavra de Deus, mesmo para pessoas que não cumpriram sua parte na aliança, é a vida restauradora e ressuscitadora de Jesus.
Veja você mesmo
Que o Espírito Santo abra os seus olhos para ver o Deus que é justo. E que você veja Jesus como aquele que recebe a justiça de Deus pela nossa culpa, para que as promessas de Deus se cumpram.


