O que está acontecendo?
Nos últimos capítulos de Ester, devemos nos sentir ao mesmo tempo aliviados e inquietos. O povo de Deus na Pérsia está a ponto de ser salvo por meio de uma série de reversões dramáticas, mas vários detalhes da história são preocupantes.
Hamã está morto, mas o edito dele, que ordenava o extermínio dos judeus, continua em vigor (Ester 8.2). A rainha Ester pede ao rei que reverta o edito, e Xerxes dá a Ester e a Mardoqueu o poder de fazê-lo (Ester 8.8). Eles escrevem uma reversão palavra por palavra do edito de Hamã, permitindo que os judeus se defendam e se vinguem de seus inimigos no dia 13 do mês de adar (Ester 8.11,13). Mas Mardoqueu, em vez de demonstrar solidariedade com o seu povo, sai do palácio de Xerxes vestido como um rei persa (Ester 8.15). Então, quando a notícia da reversão de Hamã e de Mardoqueu se espalha, persas por todo o império de Xerxes se tornam judeus e demonstram solidariedade adorando o Deus de Israel (Ester 8.17).
E, quando chega o dia 13 de adar, os inimigos que esperavam destruir os judeus são eles mesmos destruídos (Ester 9.1). Ainda que o edito de Mardoqueu o permitisse, é dito que os judeus não tomaram despojo. Não se trata de uma guerra de vingança, mas de uma guerra que reverte o pecado do primeiro rei de Israel, Saul. Em contradição direta com as ordens de Deus, Saul poupou o antepassado dos filhos de Hamã e saqueou a sua terra (1 Samuel 15.9). Ao ascenderem ao poder na Pérsia, os judeus tomam cuidado para não repetir os mesmos pecados do reino de Saul. Mas vale notar que Deus não aprovou nem ordenou essa nova guerra.
Além disso, Ester pede um dia extra de vingança na capital persa e que os corpos dos filhos de Hamã sejam expostos publicamente — pendurados em madeiros — ao lado do pai deles (Ester 9.13). Mardoqueu então formaliza essa celebração com uma festa, exatamente como as festas persas que deram início à história de Ester (Ester 9.20-21). A festa é chamada Purim, por causa das sortes que Hamã usou; elas não são mais objetos de morte, mas de vida e vitória (Ester 9.26)! Mas, como a guerra não autorizada, Purim é a única festa judaica nas Escrituras que não foi diretamente estabelecida por Deus. De modo perturbador, o livro termina com Xerxes ainda em seu trono (Ester 10.1-2) e Mardoqueu elevado ao assento de poder que Hamã usara para tramar a destruição dos judeus (Ester 10.3).
Onde está o Evangelho?
Ester e Mardoqueu são heróis, mas as suas ações são muitas vezes inquietantes. Ester esconde a sua identidade judaica e abandona as leis judaicas (Ester 2.10). Ambos se vestem com os trajes do império persa e têm nomes derivados de deuses persas (Ester 2.9; Ester 8.15). Nenhum dilema moral lhes passa pela cabeça quando Ester entra no quarto do rei para “agradá-lo” (Ester 2.15-16). Ester pede que os corpos dos filhos de Hamã sejam publicamente humilhados depois de um dia de vingança não provocada. E Mardoqueu, agindo como só Deus havia agido até então nas Escrituras, estabelece uma festa para todo o reino. Somando-se a toda essa ambiguidade moral está o fato de que, enquanto os nossos heróis agem como persas, os persas começam a adorar como judeus.
É de partir o coração: o mundo de Ester é um mundo que reconhecemos — um mundo em que Deus parece silencioso, e um mundo em que aqueles que têm o poder de agir em nome de Deus muitas vezes agem como os governantes que os oprimem. Pertencemos a um mundo em que as igrejas que levam pessoas a começar a agir como Jesus são as mesmas igrejas que agem como o abusivo Xerxes.
Mas a melhor notícia oferecida por um livro moralmente ambíguo como Ester é que Deus não é limitado em seu poder de fazer o bem e de salvar, mesmo quando todo o povo age mal. E a morte de Jesus comprova o mesmo ponto. Antes de Jesus morrer, a liderança de Israel o queria morto. As elites de Roma eram covardes. A multidão estava sedenta de sangue. E, apesar de todas as boas obras e milagres que os próprios discípulos de Jesus tinham visto e realizado, todos eles o traíram, negaram ou abandonaram. Mas, exatamente como nos acontecimentos de Ester, o poder de Deus não foi limitado pelas ações desses homens e mulheres (Atos 2.23). Ao contrário, o mal, o caos e a ambiguidade moral serviram de palco para a ressurreição e para a prova de que Deus pode reverter a morte em uma eternidade de vitória e vida.
Veja por si mesmo
Oro para que o Espírito Santo abra os seus olhos para ver o Deus que não é limitado pelo mal humano. E que você veja Jesus como aquele que morre para reverter a morte em vida.


