O que está acontecendo?
O título Cântico dos Cânticos é uma forma hebraica de dizer o maior cântico — assim como rei dos reis significa o maior rei (Cântico dos Cânticos 1.1).
Cântico dos Cânticos é poesia erótica de amor que descreve a paixão compartilhada entre marido e mulher, junto com a intimidade sexual que legitimamente a acompanha. Esse tipo de literatura pode parecer fora de lugar na Bíblia e talvez faça você ruborizar ao lê-lo. Mas é muito valioso, porque também revela muito sobre nossa intimidade com Deus.
Outras religiões daquela época de fato fundiam a intimidade física com a experiência divina naquilo que se conhece como cultos de fertilidade. Sexo com prostitutas enchia os aposentos dos templos pagãos (1 Coríntios 6.15). A intimidade sexual era uma das formas pelas quais eles encontravam seus deuses. Mas o nosso Cântico busca algo diferente.
O Cântico começa com uma mulher falando a seu amado sobre seu desejo ardente por ele. Ela exalta seus beijos e seu amor (Cântico dos Cânticos 1.2). Ela se derrama em elogios aos óleos perfumados com que ele se cobriu (Cântico dos Cânticos 1.3). E implora que ele a leve aos seus aposentos.
Mas, surpreendentemente, notamos que ela não está falando com um homem comum, e sim com o rei (Cântico dos Cânticos 1.4a). O título “rei” provavelmente é uma metáfora para o quanto a mulher estima seu amado. Ele pode ser apenas um agricultor, mas, para ela, é como um rei.
Em seguida, somos apresentados a outro grupo de vozes. Uma pequena multidão de espectadores anônimos confirma o louvor e o amor da mulher pelo homem (Cântico dos Cânticos 1.4b). A presença desse coro de vozes seria estranha em meio a uma conversa íntima. É por isso que provavelmente os versículos iniciais descrevem uma cerimônia de casamento, e estamos ouvindo os votos, junto com o cântico de afirmação das damas de honra.
A noiva retoma o cântico. Ela fala de como anos de trabalho nos campos escureceram sua pele, um sinal de baixa condição social naquela época (Cântico dos Cânticos 1.6). Mas a noiva não vê isso como um defeito. Em vez disso, ela compara sua pele às cortinas que cercam a presença de Deus no templo (Cântico dos Cânticos 1.5). Ela não sente vergonha de sua aparência, porque é amada por seu rei.
Onde está o Evangelho?
O cântico inicial da noiva usa uma linguagem normalmente reservada para falar do templo de Deus (Êxodo 30.37). Ela compara a intimidade que espera ter com o noivo à alegria e à satisfação de estar na presença de Deus no templo (Salmo 4.7).
Desde o início, o maior Cântico nos desafia a meditar nas ligações entre a presença de Deus e o desejo e a intimidade sexuais (1 Coríntios 6.13).
Ele aponta para nossa maior satisfação — a presença de Deus (Salmo 84.2). Essa satisfação não é mediada por um encontro sexual físico. Ao contrário, o amor encontrado na presença de Deus eclipsa a satisfação sexual, como a glória de um rei eclipsaria a de um agricultor.
Não é de admirar que Jesus nos chame de sua noiva e a si mesmo de nosso noivo (Mateus 9.15). Ele é o noivo que também é o rei, nosso marido que também é nosso Deus. Ele nos ama de maneiras muito mais grandiosas do que qualquer outra pessoa jamais poderia, derramando o melhor vinho de seu sangue e a melhor unção de seu Espírito para levar pessoas envergonhadas e de baixa condição como nós ao aposento de sua presença satisfatória (Romanos 5.8).
A presença de nosso marido celestial não é como ir ao templo. É melhor. Nós somos o seu templo. O Espírito Santo habita em nós, proporcionando intimidade constante com Deus.
Veja por si mesmo
Oro para que o Espírito Santo lhe mostre o Deus cuja presença é mais satisfatória do que toda intimidade física. E que você veja Jesus como o noivo que ama você, sua noiva, tão intimamente que entregou a própria vida.

