O que está acontecendo?
Os coríntios estão competindo e se dividindo por causa daquilo que deveria uni-los: os dons espirituais. Isso acontece porque o seu passado pagão lhes deu uma visão distorcida dos dons espirituais. Os deuses pagãos eram retratados em imagens poderosas conhecidas como ídolos, que representavam as habilidades únicas que os tornavam divinos (1 Coríntios 12.1-2). Os adoradores pagãos se esforçavam para se tornar como esses ídolos super-humanos por meio de seus próprios feitos poderosos. Eles acreditavam que diferentes deuses concediam diferentes poderes — ou dons espirituais — aos seus seguidores favoritos. As pessoas competiam por esses dons divinos, que poderiam permitir que se tornassem como os deuses.
Essa mentalidade se infiltrou na igreja, e o apóstolo Paulo procura corrigi-la. Pois, à medida que os pagãos de Corinto começaram a ver e a seguir Jesus, eles se tornaram como ele. Receberam o seu Espírito e, com ele, a capacidade de ser como Deus no mundo. O Espírito de Deus os capacitou a edificar o corpo de Jesus entre eles, ao ouvirem a voz de Deus, realizarem milagres e falarem as suas palavras às nações (1 Coríntios 12.4-5). Paulo chama de dons do Espírito esses sinais externos do seu relacionamento divino interior. Os dons espirituais revelam Jesus à igreja e a edificam à imagem de Jesus (1 Coríntios 12.6-10).
Mas, em vez de usar esses dons para edificar a igreja à semelhança de Cristo, os coríntios estavam dividindo a igreja por causa de quem tinha os maiores dons. Eles viam seus dons como formas de provar que eram melhores que os outros e que estavam mais próximos de alcançar a divindade. Em vez disso, Paulo os lembra de que o Espírito não é dado individualmente para a edificação de um só, mas é dado coletivamente a todos os crentes para a edificação da igreja (1 Coríntios 12.11-13).
Paulo explica que não há lugar para competição na igreja. Para eles há um só Deus, que dá o seu próprio Espírito ao seu povo. Ele é a única fonte de todas as capacidades espirituais, e dá o seu Espírito a cada membro da sua igreja, não apenas a uns poucos seletos e de elite. O Espírito não deu a todo cristão o mesmo dom. Isso não é porque esses dons ou esses crentes sejam menos valiosos, mas porque a igreja precisa de muitos dons diferentes para funcionar adequadamente. O mesmo vale para o corpo humano. Se tivéssemos apenas olhos, não poderíamos ouvir. Se tivéssemos apenas ouvidos, não poderíamos sentir cheiros. Há enormes diferenças entre cada parte do nosso corpo, e ainda assim cada uma é necessária e importante. Certas partes do nosso corpo podem parecer mais importantes, mas não conseguem funcionar sem o restante do corpo. O olho pode ter um lugar de honra no corpo, porque tem o dom inestimável da visão. No entanto, é inútil se não estiver ligado a um corpo. Por outro lado, há partes do corpo que parecem menos honrosas ou mais fracas. Ainda assim, são elas que fazem o corpo funcionar e o mantêm unido. É uma boa notícia que nem todos tenham os mesmos dons. Em vez de usar os dons para estratificar e dividir, os coríntios deveriam usá-los para unificar e edificar a igreja.
Nessa linha, Paulo diz que os dons mais desejáveis não são os que elevam egoisticamente o indivíduo, mas os que elevam amorosamente todo o corpo (1 Coríntios 12.31). O dom mais desejável é o amor. Os pagãos pensam que seus feitos poderosos, que os enaltecem e os tornam como os deuses, são mais desejáveis. Mas Paulo diz que o que mais nos torna semelhantes a Deus é o amor uns pelos outros. Se realizarmos os feitos mais incríveis sem com eles edificar a igreja em amor, não nos tornaremos como Jesus (1 Coríntios 13.1-3). Os verdadeiros dons espirituais revelam o amor de Jesus e formam a igreja à imagem de Jesus.
Onde está o Evangelho?
A boa notícia sobre os dons espirituais é que os pagãos estavam errados. Não precisamos subir até o céu para ser como Deus. Ao contrário, Deus desceu à terra para nos tornar como ele. Jesus está no meio do seu povo, enquanto o seu Espírito nos capacita a viver como o seu corpo no mundo (Gálatas 2.22). Não precisamos tentar conquistar algo superando uns aos outros com os nossos dons. Isso porque Jesus já nos deu o maior dom. Jesus nos deu o seu amor, nos convidou a fazer parte do seu corpo e está nos tornando como ele mesmo por meio do Espírito Santo (Romanos 5.5). Portanto, como não há necessidade de conquistas ou de competição, podemos usar os nossos dons com amor para edificar os outros no corpo de Jesus e ajudar a formá-los à imagem de Jesus.
Quando a igreja usa os dons do Espírito para amar uns aos outros e ao mundo, participamos da entrega do maior dom: Jesus mesmo. Quando o corpo de Jesus age com o amor de Deus por meio dos dons do Espírito, fazemos o que os ídolos pagãos nunca poderiam fazer. Mostramos ao mundo como Deus realmente é (1 Coríntios 13.4-7). E quando a igreja usa os seus dons em amor para edificar uns aos outros, fazemos aquilo para o que fomos criados: nos parecermos coletivamente com Jesus na terra.
Mas os dons espirituais são apenas um reflexo tênue do que um dia experimentaremos plenamente (1 Coríntios 13.8-10). Os dons espirituais revelam Jesus e nos ajudam a nos tornar mais parecidos com ele. Mas um dia Jesus voltará e nos fará como ele mesmo. Quando isso acontecer, não haverá mais necessidade de dons espirituais que o revelem, porque nós mesmos o veremos (1 Coríntios 13.11-12). Nossa fé e nossa esperança nesta vida passageira se dissolverão no amor eterno de Jesus por nós. Pois veremos aquilo em que a nossa fé crê e receberemos aquilo por que a nossa esperança anseia. A única coisa que permanecerá é o amor que temos por Jesus e o amor que ele tem por nós (1 Coríntios 13.13). O amor a Deus e uns aos outros é o maior dom do Espírito que a igreja tem.
Veja você mesmo
Oro para que o Espírito Santo abra os seus olhos para ver o Deus que dá ao seu povo tudo o que precisa para ser edificado. E que você veja Jesus face a face quando tudo o mais tiver passado.

