O que está acontecendo?
Depois de explicar como os animais podiam tornar Israel impuro (Levítico 11), Deus agora mostra como o próprio corpo dos israelitas podia torná-los impuros (Levítico 12–15).
A impureza nesta seção vem de coisas como a perda de fluidos corporais, infecções ou doenças de pele. Nenhuma delas é pecado moral. De fato, algumas acontecem por meio de partes boas e naturais da vida, como o parto (Levítico 12.2-5). Mas, embora não sejam pecaminosas, estão associadas à morte. Se alguém perde sangue ou fluido corporal em quantidade suficiente, morre. Se uma infecção ou doença se espalha sem controle, ela leva à morte (Levítico 13.45-46).
E se essa impureza é admitida no lugar onde Deus habita, então a morte se espalha para dentro do próprio tabernáculo que existe para espalhar a santidade e a vida de Deus. É por isso que aqueles que estão impuros precisam permanecer fora do acampamento e do tabernáculo até que sejam declarados puros novamente (Levítico 15.31). O espaço santo de Deus precisa continuar santo para poder ser aquilo para o qual foi destinado: um lugar o mais próximo possível do Éden, um lugar de vida incorruptível.
É por isso que as categorias de puro e impuro são tão importantes. Desde o princípio, os seres humanos foram criados para a vida com Deus — uma vida plena, incorruptível e livre de dor e corrupção (Gênesis 1.31). Mas fora da criação perfeita de Deus, a vida tende à desordem e à morte. Assim como Deus separou a luz das trevas em Gênesis 1.4, assim também aqui ele separa o puro do impuro. Ele chama Israel a guardar os limites da santidade, para que a sua presença possa permanecer no meio deles como fonte da vida da nova criação.
Os líderes desempenham um papel central nesse processo. Eles não são médicos que curam as pessoas, mas inspetores que declaram o verdadeiro estado das coisas (Levítico 13.3). Eles pronunciam se alguém está puro ou impuro, e supervisionam os rituais que marcam a restauração de uma pessoa. O sistema trata de nomear a realidade com verdade, para que a morte e a corrupção não se aproximem da santa habitação de Deus.
O próprio tempo também desempenha um papel na restauração dos impuros. Muitas vezes, a impureza dura apenas até a tarde — “houve a tarde e a manhã” evoca os dias da criação (Gênesis 1.5; Levítico 11.24). Em outros casos, a pessoa impura espera sete dias, ecoando os sete dias da criação (Levítico 12.2; 15.13). Os dois padrões mostram que Deus está dando ao seu povo a vida da nova criação, transformando a corrupção e a desordem de volta em plenitude e ordem.
Por fim, quando o tempo da purificação se completava, alguns casos exigiam uma oferta de purificação ou de reparação (Levítico 12.6-8; 14.19-20). Essas ofertas não eram para pagar por falhas morais ou prejuízos econômicos. Em vez disso, elas reintegravam a pessoa à comunidade santa de Deus. Assim como os líderes eram consagrados por meio de ofertas para habitar na santa presença de Deus (Levítico 8.6-12), também os israelitas comuns que haviam ficado impuros eram restaurados por meio do sacrifício para voltar à família santa de Deus — um reino de líderes (Êxodo 19.6).
Onde está o Evangelho?
Tudo isso nos aponta para Jesus.
Como os impuros de Israel, nós também estamos separados de Deus. Nossas vidas são marcadas pela corrupção, pela fraqueza e pela morte (Romanos 5.12). Vivemos fora do acampamento da santa presença de Deus. Mas Jesus deixou o verdadeiro templo do céu e veio até nós (João 1.14). Ele tocou os impuros, curou seus sintomas e os declarou puros. Em Mateus 8.2-3, ele estendeu a mão e tocou um leproso, dizendo: “Seja purificado!” Em Marcos 5.25-34, uma mulher que sofria de hemorragia tocou nele e, em vez de torná-lo impuro, a santidade dele a tornou sã.
Ao contrário dos líderes de Levítico, que só podiam observar e esperar, Jesus de fato cura. Ele restaura tanto a condição quanto o sintoma. Ele não apenas chama o puro de “puro”. Ele torna o impuro puro pelo poder da sua santidade.
E, como os sacrifícios de Levítico, o sacrifício de Jesus nos purifica. Mas vai além. As ofertas de Israel não podiam libertar as pessoas da corrupção da morte. O sangue de Jesus liberta. A vida dele cobre a morte uma vez por todas, purificando-nos não apenas para o tabernáculo, mas para a habitação eterna de Deus (Hebreus 9.13-14).
Mais do que isso, o sacrifício de Jesus não apenas nos traz de volta ao acampamento. Ele nos consagra como um sacerdócio santo. Assim como Israel era reintegrado depois da impureza, nós somos restaurados por meio de Jesus à família santa de Deus, feitos líderes que podem habitar na sua presença e espalhar a sua santidade ao mundo (1 Pedro 2.9).
E essa purificação não é temporária. Jesus é aquele que vai recriar a nós e ao próprio mundo em um estado incorruptível. O que Levítico retratou em ciclos de tarde e manhã e em sete dias de espera, Jesus completará uma vez por todas nos novos céus e na nova terra, onde a morte e a impureza nunca mais nos tocarão (Apocalipse 21.4,27).
Veja por si mesmo
Oro para que o Espírito Santo lhe dê olhos para ver o Deus que guarda o seu espaço santo, para que ele continue sendo um lugar de vida. E para que você veja Jesus como o Santo que vai até os impuros, cobre a morte com a sua vida e recria o mundo, transformando-o em um lar novo e incorruptível com ele para sempre.

